sábado, 31 de maio de 2014

Descanso do rio

Foto:josé alfredo almeida

Outro Mundo

Foto: josé alfredo almeida 



Esperamos a sombra.
A clara sombra e o lugar devido
às tuas mãos alçando-nos a taça
e o doce vinho.
Depois o sério movimento alarga
estar-se ouvindo,
por trás de ti extraviada,
a sombra que esperamos longa e larga
como pensar beber o último vinho.

Fernando Echevarría 

O Congresso Ordinário da LBP – Peso da Régua


41º Congresso da LBP- Régua-2011

INTRÓITO 

Entre os dias 28 a 30 de Outubro de 2011, decorreu na cidade do Peso da Régua o 41º Congresso Ordinário da Liga dos Bombeiros Portugueses… 

Um dos momentos maiores dos 81 anos de vida da Confederação dos Bombeiros Portugueses aconteceu junto às margens do Douro Vinhateiro, numa das paisagens mais inspiradoras para os visitantes desta generosa serpente de água que irrompe por vales e montanhas com destino ao Atlântico. 

No dia 28 de Outubro, pelas 15:00 horas, eis-me chegado à Cidade da Régua, a capital comercial do vale do Douro. 

A azáfama era muita por toda a Cidade, sobretudo para os Companheiros responsáveis pela Organização do Congresso, personalizados na figura do Presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Vila Real e Presidente da Direcção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Peso da Régua – Dr. José Alfredo Almeida -, o qual não conseguia disfarçar o natural entusiasmo da vivência do momento. 

Por outro lado, os momentos que antecederam a abertura oficial do Congresso, sobretudo para os elementos que constituíam as duas Listas Concorrentes, poderiam ser caracterizados por uma única palavra – "suspense". 

Fazendo parte da Lista B, era mais um dos entusiastas de um Debate que ambicionava profundo e frutuoso, para bem do futuro dos Bombeiros Portugueses. 

Como estava enganado! E, garanto-vos, não foi só por causa do resultado final! 

OS PREPARATIVOS 

Em Dezembro de 2010, numa reunião do então Conselho Executivo da LBP realizada em Setúbal, envolta num indisfarçável entusiasmo por parte de um dado elemento desse Órgão, ressaltou desde logo a ideia da criação de uma Lista candidata ao Congresso, na base do então Presidente da Mesa dos Congressos. 

Os projectos foram-se alinhando e as estratégias foram lançadas. 
Com uma táctica arrojada e trabalhosa, assente no contacto directo porta a porta, o mesmo é dizer, Associação a Associação, a Lista B começou o périplo pelo continente, visitando todos os seus distritos. 
Foram semanas de trabalho intenso e gratificante, dado que assim foi possível analisar “in loco” uma realidade, da qual alguns têm apenas algumas percepções.
Desde logo foi constituída uma equipa de trabalho, com esferas específicas de actuação, assente na figura do líder do Projecto, Dr. Rebelo Marinho. 

O DESENVOLVIMENTO DO PROJECTO 

No dia 30 de Setembro de 2011, no Hotel Montebelo, em Viseu, foi oficialmente apresentado o Programa da Lista B, intitulado "Por um Futuro...de Mudança!" 

Numa Sala a abarrotar de Dirigentes dos Bombeiros de Portugal, com particular destaque para as Associações e Corpos de Bombeiros do Distrito de Viseu, foi dado particular destaque por parte da Comunicação Social presente à criação uma Direcção Nacional de Bombeiros, separada da ANPC, e ao Transporte de Doentes, levado a cabo por bombeiros, mas com recurso a estruturas paralelas ao socorro, assente num modelo empresarial. 

A dinâmica que envolveu a candidatura foi ganhando contornos de entusiasmo e mobilização ao longo da campanha, com evidências demonstradas em todas as acções que foram sendo promovidas. 

AS RAZÕES DO MEU APOIO 

As razões do meu apoio à Lista B, liderada pelo Dr. Rebelo Marinho, foram descritas num pequeno manifesto que tive a oportunidade de escrever numa das “newsletters” produzidas pela Lista B. Dizia então: 

Caros Companheiros, 

Quanto o Dr. Rebelo Marinho me telefonou, nos últimos dias de Dezembro do ano transacto, perguntando-me se gostaria de pertencer a um Projecto de Futuro e de Mudança nos Bombeiros de Portugal, estava longe de imaginar ao que isto nos haveria de levar. 

Confesso que fiquei surpreendido, tendo-lhe perguntado as razões de tal opção. Não me foi referido qualquer assunto de ordem pessoal, tais como o credo religioso, o clube de futebol ou a orientação partidária. Referenciou-me então aquilo que todos conhecemos das suas intervenções públicas, quer como Conselheiro Nacional da LBP, quer como Presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Viseu, tendo igualmente salientado que o projecto em causa deveria crescer de acordo com o trabalho de uma equipa que pretendia coesa, determinada, criativa, com visão, diversificada, liderante e com uma causa comum: a defesa dos interesses da Instituição Bombeiros e das populações por ela servidas. 

A equipa foi constituída e foram estabelecidos factores de sucesso para a candidatura, entre eles: ter objectivos claros a serem cumpridos, estabelecer metas, possuir uma comunicação transparente, muita cooperação e elevado grau de exigência e de comprometimento. 

De todo o trabalho desenvolvido pela Lista B, neste período pré-eleitoral, ressalta a proximidade às bases que instituiu, feita dos milhares de quilómetros percorridos, das centenas de Associações/Corpos de Bombeiros visitados, num manifesto sinal de humildade e de fidelidade aos princípios e valores. 

Foi assim possível ao Dr. Marinho e à sua equipa conhecer ainda melhor a realidade das nossas estruturas, não pelo que se lê, mas por aquilo que se pode observar, e preparar, desta forma, um Programa Estratégico de Acção, capaz de responder com eficácia e eficiência às necessidades apontadas. 

A mensagem que a Lista B pretendeu transmitir e da qual fará a sua divisa após o Congresso da Régua de 2011 é a de que, com a participação de todos sem excepção, poderemos instituir um novo espírito para os Bombeiros Portugueses: sejamos pois os protagonistas dessa Mudança! 

O 41º Congresso da LBP aproxima-se, os dados estão lançados e não tenho dúvidas em afirmar que a LISTA B e o Dr. Rebelo Marinho, como seu líder, são a melhor solução para as inúmeras incertezas que assolam o sector. 

Como “Alcança quem não cansa”, quero desejar ao Amigo Joaquim Marinho boa sorte para a árdua tarefa a que se propôs, em prol de um Futuro de Mudança real e consequente para os Bombeiros de Portugal! 

OS TRABALHOS DO CONGRESSO 

Eis-nos chegados a sexta-feira, 28 de Outubro, primeiro dia dos trabalhos do 41º Congresso da Liga dos Bombeiros Portugueses. 

A Associação Local efectuou todos os preparativos e programou uma sessão de alto valor cultural, procurando elevar dessa forma o nível intelectual da Assembleia Magna. 

Após o jantar, os trabalhos do Congresso começaram, presididos pelo Vice-Presidente da Mesa dos Congressos, Dr. Agostinho Teixeira. 
Os momentos mais altos dessa noite foram protagonizados pelos dois Candidatos ao lugar de Presidente do Conselho Executivo: pela Lista A, o Cmdt. Jaime Soares e, pela Lista B, o Dr. Rebelo Marinho. 

Num discurso emotivo, mas um pouco esvaziado de conteúdo programático, o Candidato da Lista A, conseguiu arrancar algumas manifestações de satisfação por parte de uma sala razoavelmente preenchida para o dia em causa (primeiro dia, à noite e Sexta-feira). 
Quando o Dr. Rebelo Marinho subiu ao palanque para fazer a respectiva intervenção, algumas das características reconhecidas ao Candidato subiram com ele: firmeza, foco no objectivo, coerência e contextualização. 
Foram alguns minutos de lógica dedutiva argumentativa e quantitativa, em torno daquilo que a Lista B considerava serem as necessidades das entidades detentoras de Corpos de Bombeiros e daquilo que se pretendia implementar na Confederação.

Os presentes responderam com entusiasmo e o Congresso vergou-se à qualidade do discurso. 
Para o penúltimo dia do Congresso (Sábado), estava agendado o momento mais alto do Congresso, a eleição dos Órgãos Sociais da Confederação, para o mandato 2012-14. 
Após uma manhã de intervenções mais ou menos controladas emocionalmente, eis um período da tarde onde, por um lado, o fervilhar do momento eleitoral se fazia sentir pelos corredores e, por outro lado, as intervenções iam subindo de tom, utilizando-se todos os argumentos para fazer tombar os votos dos indecisos, uma vez que uma margem significativa das Associações e Corpos de Bombeiros já tinham fixado o seu posicionamento. 

No cômputo geral, direi que os trabalhos foram caracterizados por um sucessão de apoios e contra-apoios aos Candidatos, sem uma discussão profunda das temáticas recorrentes da vida das Associações e Corpos de Bombeiros em Portugal. 

Contrariando uma máxima de Santo Agostinho, foram mais combatidas as pessoas do que as ideias e, quando assim é, outros aspectos são relevados… 

Ou como refere Mário Bacelar Begonha "O verdadeiro poder é o poder das ideias, poder sem ideias é um vazio de poder, ou seja, não é poder algum porque lhe falta toda a legitimidade, e, quando muito, apenas terá a legalidade de uma eleição". 

TÁCTICAS E ESTRATÉGIAS 

A Liderança do Congresso foi disputada voto a voto e foi exactamente nos últimos momentos que a vitória tombou para a Lista A. 

As razões apontadas para esse resultado radicam naquilo em que a Lista B conseguiu ser mais forte no decorrer da Campanha Eleitoral, a utilização da táctica e da estratégia adequadas. 

Assim, foi no posicionamento final da Lista B que o Congresso foi perdido. 

Após uma noite de Sexta-feira que fazia pensar num domínio total da votação, eis que, no Sábado, a situação foi invertida. E o mais caricato é que essa inversão não se fez pela via da capacidade argumentativa, mas por uma mistura de ausência de apoio manifesto por parte de algumas estrelas da Lista B e pela utilização da rede de influência institucional pela Lista A. 

A Lista A descobriu mais rapidamente a sua real posição no Congresso e desenvolveu um plano táctico e estratégico baseado nessa realidade, utilizando uma panóplia de instrumentos à sua disposição, enquanto a Lista B foi incapaz de reagir àquilo que se passava mesmo à frente dos seus olhos, ficando presa à figura incontornável do seu candidato, atitude manifestamente insuficiente para fazer frente a um conjunto de desafios que se colocavam simultaneamente (respostas e contra-respostas, preparação dos momentos eleitorais, últimos contactos).
A táctica foi transformada numa estratégia e o ataque foi desferido da melhor forma possível. 

A Lista A venceu o 41º Congresso da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Paulo Hortênsio

Museu do Douro-23

Foto: josé alfredo almeida



Deduziu-se a paisagem da matéria
que o espírito aos poucos, abstraíra
daquela atenção intensa
que parecia alegria.
Deambulara, isenta, pela terra
(...)
Tudo isto subiu pela matéria.
Ao alto se se fixou, selectiva.
E é daí que a sua luz nos chega.
E de uma outra que divulga o enigma

Fernando Echevarría

Memórias de um profissional do comércio






"O autor deste pequeno livro, que resolveu oferecer gratuito aos seus amigos, chama-se Silvano Vitorino Machado, natural da freguesia de Louza, concelho de Moncorvo, distrito de Bragança. Nasceu em 26 de Dezembro de 1884; tem, pois, ao fazer este livrinho, 70 anos.
Filho de pequenos lavradores, meus pais mandaram-me aos 7 anos para a escola, onde andei até aos 11 anos para fazer o exame de Instrução Primária.
Quando estava com o tal exame feito, meu pai pediu a um nosso patrício que vivia no Porto para me arranjar uma casa para marçano.
Aquele nosso patrício, decorridos alguns meses, escreveu a meu pai que já tinha arranjado casa. Bem entendido, meu pai tratou logo que recebeu a notícia de me preparar a bagagem: um fato de surrobeco de cor amarelada, um pare de butes com três centímetros de alto, que eram os que os mestres sapateiros lá da minha aldeia sabiam fazer, dois pares de ceroulas e duas camisas, tudo dentro de uma saca de amostras.
Combinou-se o dia da partida e meu pai acompanhou-me à estação do Freixo, pois é esta estação que serve a minha aldeia. 
(....)
Falando depois com um meu patrício, que era o guarda reformado Neto, este aconselhou-me a deitar um anúncio no "Jornal de Notícias". Ele mesmo se encarregou de deitar o anúncio, e passados quatro ou cinco dias o tal Sr. Neto apareceu e mostrou-me uma carta da Régua, do Sr. José Lopes da Silva, a rogar-me vir trabalhar para sua casa- Escrevi-lhe nesse mesmo dia e disse que ia no dia 21 devia estar em sua casa. Assim foi. No dia 20, era um domingo, parti de Gaia para Régua, onde cheguei às 10 horas e tal da noite, com um frio terrível.
Quando me apeei do comboio, ouvi os corretores: "Hotel Douro"!"Hotel Itália"! Perguntei a um carregador qual daqueles dois hotéis seria o mais barato, e ele de pronto  me respondeu que o mais barato era o Hotel Itália, por isso chamei pelo corretor do tal Itália e dei-lhe ordem para levar para o hotel a bagagem que naquela altura já era uma pequena mala, de pouco peso, pois a roupa era também pouca. Perguntando ao corretor se conhecia o Sr. José Lopes da Silva, ele disse-me que esse senhor era o dono do hotel para onde eu ia e que também tinha uma mercearia.
Chegado ao hotel ia cheia de frio e pedi que me fornecessem um cálice de bagaceira, que foi servido pela criada Joana Jeitosa e me mandou pelo corretor ensinar o quarto onde iria dormir. Pedi-lhe mais um cobertor que ele botou na cama e em breve aqueci e confesso que dormi bem.
(...)
Isto deve-se ter passado em 10 ou 15 de Janeiro, o estado de saúde do Sr. José Lopes piorava de dia para dia, tendo falecido em 2 de Fevereiro de 1902. Nesse dia  estava a Régua cheia de neve com mais de dez centímetros de altura nas ruas da vila.
A morte do Sr. José Lopes produziu a maior consternação não só na família como também em todos os habitantes do concelho do Peso da Régua, onde era geralmente estimado.
(...)
Uma vez restabelecido comecei com a maior vontade a lutar pelo engrandecimento da Casa Viúva Lopes, que se tornou uma das melhores da Régua.
(...)
A firma Silvano & Cunhados marcou na vila da Régua o primeiro lugar. Em 9 de Agosto de 1953, fomos vítimas de um incêndio. Nesse dia, estávamos eu e meus filhos no terraço, eram cerca de 9 e meia da noite, ainda quase dia. Uma das minhas filhas, disse-me: - "Ó Paisinho, cheira.me aqui a chamusco". Fiquei inquieto. Mandei à moagem, onde andavam carpinteiros a trabalhar que há pouco tempo tinham saído do serviço, mas lá nada havia e o cheiro continuava mais activo, e uma criada veio dizer: "É nas águas furtadas, que se vê aqui da escada um grande clarão". Fui às águas furtadas e vi as roupas das criadas a arder.
Os populares invadiram a casa, chamaram-se os Bombeiros que demoraram quase uma hora, e desprovidos de uma escada grande, com fracas mangueiras e também falta de água, que nessa altura se fazia sentir, o fogo tomou grandes proporções de forma que em pouco tempo o prédio estava todo em chamas.
Ainda a marcar esta grande desgraça, houve a infelicidade de no incêndio ter morrido um bombeiro, o infeliz João dos Óculos, bom rapaz e destemido bombeiro que perdeu a vida na sua dedicada profissão."

Fevereiro de 1955   

Silvano Vitorino Machado

Ao sol

Foto: josé alfredo almeida

Memórias do comboio

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-97

Foto:George Woods 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Nocturno reguense


Foto: José Castro

Vale de Locaia

Foto: josé alfredo almeida

Douro - Roteiro Sentimental

Desenho de Gracinda Marques

Ler João de Araújo Correia



João de Araújo Correia in " Manta de Farrapos"



Rio de viagens


Reconhecer o Douro

Foto: josé alfredo almeida 

(Re)Conhecer a Régua-96



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ficar aqui

Foto: josé alfredo almeida



Encosta a cabeça
a estas nuvens
acariciadoras
em seguida
dorme
deixa a tua melancolia opaca
de planeta
bailar na praça do sonho.
Deixa as estrelas desta noite
serem só
o antigo
cântico dos bosques
e os teus versos
os rios
que atrás ficaram a brilhar.

João Martim

Cheiros da terra

Foto: josé alfredo almeida



Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
Não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama
de silêncio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo, vivo
sobre o teu peito, sobre os teus flancos,
e cresço para ti. 

Eugénio de Andrade

Preencher o silêncio

Foto: josé alfredo almeida



"Poetas, artistas, filósofos e místicos louvam o silêncio como fonte de engrandecimento espiritual. O mesmo é dizer que esconjuram o ruído como agente de degradação do homem raso da animalidade. Pegam em si e fogem onde quer que sintam barulho.

(...) Se adormecessem,ouvindo vozes dignas de preencher o silêncio, desde o murmúrio da  à oração dum violino, outro galo lhe cantaria ao acordar."


João de Araújo Coreia in "Pátria Pequena" 

Segredos

Foto: josé alfredo almeida 


Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
- Tão quente tão quente
esse verão

Jorge Sousa Braga

(Re)Conhecer a Régua-95

Foto: George Woods

Os livros de João de Araújo Correia-11





Manta de Farrapos
(Crónicas Dispersas)

Autor: João de Araújo Correia
Editora: Imprensa do Douro, 1962  


"Na economia doméstica antiga, nada se perdia, tudo se criava...No aproveitar, ia o ganho - como se dizia. De velhos trapos, reduzidos a tiras, mandavam tecer, em arcaicos teares manuais, as mantas de farrapos. Serviam para a cama, para o berço de um filho e até para deitar pelos ombros. Eram um remedeio de pobres como agasalho. Mas, não eram feias de todo. Feio é o diabo...Da variedade de tiras, unidas umas às outras com linha branca, muito apertada, saía uma obra humilde, mas, harmoniosa.
Deram tento de semelhante harmonia os amadores da arte popular. Tanto, que fizeram da manta de farrapos objecto de luxo. Deram-lhe brazão, elevando-a à categoria de tapete. Põem nela os olhos quando a penduram como gobelinos.
Em boa hora os amadores da arte popular descobriram a manta de farrapos. Foi a maneira de prologarem a vida aos agonizantes teares manuais. A manta de farrapos ainda se usa, e usará enquanto houver amadores da arte popular.
Seja como for, tentei na manta de farrapos o símile deste livro. Feito de escritos de vária índole, publicados em jornais e revistas pela ordem que adiante se republicam, é uma obra de aproveitamento. Que o prelo lhe dê harmonia, como o tear harmoniza a manta de farrapos, é o meu voto."

 João de Araújo Correia

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O incêndio na Casa Viúva Lopes

João Figueiredo, também conhecido como João dos Óculos


Quem era, na Régua, que não conhecia o João dos Óculos? João Figueiredo era o seu verdadeiro nome, sendo natural de Vila Pouca de Aguiar. Há meia dúzia de anos atrás alistara-se na Corporação dos Bombeiros Voluntários, da qual era um valioso elemento, de comportamento exemplar. Era um belo e leal camarada. Tipógrafo de profissão, tinha a particularidade de ser um exímio tocador de gaita de beiços. Tinha arte e jeito para aquilo. Várias vezes tocara para a Emissora Nacional, que transmitia depois, para todo o país, as inúmeras e bem executadas músicas do seu sortido e selecto reportório. 
Era míope e, para corrigir essa deficiência, usava uns óculos demasiadamente grandes para a sua estatura, pelo que dava a impressão de que trazia uma bicicleta escarranchada quase na ponta do nariz.
Gostava de passear, segundo me disse. Mas tinha a infelicidade de a escala nunca o contemplar quando se tratava da saída de qualquer piquete de representação para qualquer terra do país. E tão desiludido ficava quando isso acontecia que um dia, no quartel, me falou sobre o assunto.
- Não te aflijas, amigo João. Na primeira ocasião em que eu seja escalado, levo-te comigo, - respondi-lhe.
Até a alma se lhe riu, ao ouvir estas palavras, ficando demoradamente, como era seu gesto habitual, a esfregar as mãos de contentamento.
E um dia, de facto, caiu-lhe a sopa no mel. Fui escalado para, com um piquete, representar a Corporação numa festa qualquer que se realizava em Lisboa.
Um dia antes da partida fui até ao quartel, verificar se tudo estava em ordem e procurar o João, para lhe dar a boa nova.
Lá o encontrei, indolentemente encostado a uma viatura. Dirigindo-me a ele, informei-o de que, desta vez, a «cautela» lhe tinha saído premiada, pois que o levaria comigo, como lhe prometera.
Estou a ver a sua cara, radiante de felicidade. E, num abrir e fechar d’olhos, pôs o capacete e os botões da sua farda a brilhar como diamantes.
Na madrugada do dia imediato, partimos para a capital, levando o João, pequeno e franzino, entre mim e o motorista, visto que a lotação da viatura estava completa.
A viagem correu bem. E em Lisboa, após a parada, destroçámos e, com o Gastão e o Cristiano, fomos a Cascais e, depois, a Cacilhas, onde, como «aperitivo», comemos umas frescas e deliciosas sardinhas assadas. Foi um verdadeiro «magusto».
O João dos Óculos demonstrava a sua satisfação e alegria num constante sorriso, e não se separou de mim um instante, na eventualidade de vir a precisar dos seus serviços.
Não permiti que ele despendesse um centavo, contrariando a sua vontade.
E foi este, afinal, o único passeio que deu, pois que, passados tempos, a importuna sirene convocava-nos para um incêndio na Casa Viúva Lopes desta vila, e ele, - tal como no passeio que deu a Lisboa - para lá seguiu precisamente entre mim e o motorista.
Ao aproximar-me do prédio incendiado verifiquei, com infinito pesar, que já a nada podíamos valer, apesar da rapidez da nossa saída, pois as labaredas, alterosas, saindo por todas as janelas, envolviam totalmente o prédio sinistrado.
Se, como sucedeu, em vez de tentarem apagar o fogo, nos tivessem chamado imediatamente e, entretanto, tivessem desligado o quadro da electricidade, talvez se tivesse feito qualquer coisa proveitosa e não tivéssemos de lamentar, agora, a perda de uma vida preciosa. Mas não sucedeu assim, infelizmente.
À uma hora e meia da manhã, um bombeiro pediu para ser substituído, pois já estava há quatro horas de agulheta em punho.
Mandei chamar outro bombeiro para isso, mas o João, que estava ali próximo, ofereceu-se para substituir o camarada. 
O pavimento da casa, naquele lugar, era de cimento, pensávamos nós. Era de cimento, sim, mas este de pouca espessura, aplicado sobre o soalho, o que constituía uma verdadeira e fatal armadilha. Se a derrocada se tivesse dado cerca de vinte minutos antes, lá ficariam o Comandante Lourenço Medeiros e o seu colega Neto, dos Bombeiros de Salvação Pública, de Vila Real, que tinham andado a vistoriar o prédio, interiormente.
O João tomou conta da agulheta, estando, assim como eu, colocados absolutamente como manda o regulamento, ou seja, sobre a soleira da porta e debaixo da sua padieira. O pé do João um pouco mais adiantado, talvez, e a derrocada do sobrado arrastou-o para aquele horrível inferno de labaredas.
Fiquei, eu e dois bombeiros que estavam presentes, envolvidos num mar de fumo, cinza e faúlhas, que quase nos cegavam.
A seguir, ouvi gritos horrorosos do João, não vendo este no lugar que ocupava. Vi a agulheta caída no chão e, então, avaliei o que havia sucedido. Quase às apalpadelas apanhei a agulheta e assestei o seu jacto em volta do João, que divisei, na penumbra, entalado por escombros, em cima de um tonel. Mandei os dois bombeiros buscar um lanço de escadas para tentarmos salvar o nosso camarada. Quando se colocava a escada para o Claudino descer, pois que se ofereceu para isso, com enorme fragor ruiu o pavimento do primeiro andar, cujos escombros, em escassos segundos, sepultaram completamente o pobre do João, cujos gritos deixaram de se ouvir.
Estes eram lancinantes, pavorosos e parece que ainda hoje estou a ouvi-los.
Quando vi baldados todos os nossos esforços para salvarmos o infeliz João, corri à procura do Comandante, para lhe dar parte da terrível tragédia. Mas já alguém se tinha antecipado a fazê-lo, pois que fui encontrá-lo completamente aniquilado. Abraçando-se a mim, chorou e soluçou como uma criança.
E essas lágrimas, sinceras e sentidas que vi deslizar, em catadupas, pelo enrugado rosto do meu bom e velho Comandante, contagiaram-me de tal forma que os soluços me embargaram a voz e as lágrimas me correram também pelo rosto, sujo pela cinza e pelo fumo daquele vulcão infernal, que tirara a vida àquele nosso bom e querido camarada.
Lágrimas destas não envergonham um homem.
Continuaram duas agulhetas a lançar água a jorros sobre o local em que se encontrava o franzino corpo do João, a fim de evitar que ficasse carbonizado, o que se conseguiu.
E só às seis da manhã, - já de dia - foi possível arrancar o seu pequeno corpo, sem vida, daquele funesto lugar.
Pobre e infeliz João! Como eu senti a morte daquele pequeno e grande amigo!
Pequeno e franzino como era, tinha no entanto uma alma de gigante.
Deu-nos um heróico e assombroso exemplo de abnegação, valentia e sacrifício.
O seu amolgado capacete ficou religiosamente guardado, no quartel, para figurar no nosso sonhado museu.

António Guedes
Antigo Chefe dos Bombeiros da Régua 

O meu Moledo-46


Largo do Cruzeiro

Foto: josé alfredo almeida

(Re)Conhecer a Régua-94

Foto: W. Hardmeier

Ponte luminosa

Foto: José Castro

terça-feira, 27 de maio de 2014

Douro mágico-2

António Pinto Fotografia

Ponte para a natureza

Foto: josé alfredo almeida



"De vez em quando é saboroso fechar os olhos e, nas trevas, dizermos a nós próprios: "Sou feiticeiro, e quando abrir os olhos verei um mundo que criei e pelo qual eu e só eu sou em absoluto responsável". Então, lentamente, as pálpebras abrem-se como o pano de um palco. E lá está o nosso mundo, tal e qual o construímos.”

Richard Bach

Cidade da Vinha e do Vinho


(Re)Conhecer a Régua-93





                           Régua, a Meia Laranja, nos anos 30

Construtores da Paisagem Vinhateira





Arquiteturas da Paisagem No Alto Douro Vinhateiro
Vol. I

Autor: Natália Fauvrelle (Coord.)
Edição: Museu do Douro, 2014




Introdução


"A paisagem é sem dúvida um dos mais importantes e  abrangentes patrimónios regionais, tendo por isso granjeado a tenção por parte do Museu do Douro, tanto mais que é na excelência deste bem que assenta a classificação do Douro como património Mundial. Ao mesmo tempo, este tipo de projeto permite uma aproximação à comunidade em função da qual o MD existe, uma vez que é essencial o envolvimento dos viticultores, não só para permitir um acesso fácil a todas as parcelas da vinha, mas também para que haja uma troca de conhecimentos que valorize o saber-fazer tradicional e fomente e valorize as práticas de conservação deste património vernacular. Consideramos que proprietários e agricultores são fundamentais nesta investigação, uma vez que têm a responsabilidade de manter e transformar as encostas, são os verdadeiros "conservadores e " construtores da paisagem".
(...)
A pesquisa permitiu-nos retirar algumas informações sobre a paisagem inventariada nesta zona do ADV, que apresenta características particulares que divergem do arquétipo tradicional da paisagem vinhateira, isto é, das "imagens-posta que habitualmente se associam às encostas durienses. Neste concelhos do Baixo Corgo a paisagem evoluiu em função de elementos como a dimensão das parcelas, as técnicas de construção e a manutenção de outras culturas além da vinha."

Natália Fauvrelle

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Douro mágico

António Pinto - Fotografia 

A Régua - Um grande plano


Foto: Miguel Guedes

Régua azul

Foto: josé alfredo almeida

O meu Moledo-45

Foto: josé alfredo almeida

Lembro-me

Foto: josé alfredo almeida


Lembro-me bem do seu olhar..
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Fernando Pessoa

(Re)Conhecer a Régua-92


sábado, 24 de maio de 2014

O que permance

Foto: josé alfredo almeida



Apesar das visitas
Breves do pavor
A beleza é tudo
O que permanece


Maltide Campilho

De olhos bem abertos

Foto: josé alfredo almeida

"Olhas para a lua nova
– dizia-me a minha mãe –
e depois fechas os olhos.
E a seguir pedes um desejo".
Fi-lo anos a fio,
era magia,
ou assim me parecia.
Mas hoje olho para a lua
de olhos bem abertos.
Aprendi.
Talvez por sorte os desejos
nunca se realizam.

Roger Wolfe

(Re)Conhecer a Régua-91



Os livros de João de Araújo Correia-10




Perfil Trasmontano de Trindade Coelho

Autor: João de Araújo Correia
Editora: Portugália Editora, 1961



"A ligação de Trindade Coelho à terra onde nasceu foi devidamente destacada por outro escritor, João de Araújo Correia, alto-duriense e também contista, quando, no último dia de Junho de 1961, para assinalar o centenário do nascimento de Trindade Coelho, discursou na Casa de Trás-os-Montes, em Lisboa, sobre o Perfil trasmontano de Trindade Coelho, conferência que verteu livro (Lisboa: Portugália Editora, 1961), dizendo, logo no início, que o escritor de Mogadouro, apesar de ter andado por várias terras (Coimbra, Sabugal, Portalegre, Ovar e Lisboa), “nunca saiu de Mogadouro”, justificando: “nunca saiu de lá, porque lá lhe ficou preso o coração à rama dos negrilhos”.
Este é o ponto de partida para considerar o “trasmontanismo” do autor de Os meus amores, apresentado por ter sido um escritor “independente”, que “não se enamorou de modas literárias” e manteve, “em cada linha escrita do seu punho, Trás-os-Montes pintado por uma pena”, com as cores da rusticidade e da delicadeza. A melhor tela, segundo Araújo Correia, está nesses contos, que revelam “o cenário do planalto, os animais rasteiros e os passarinhos, a leiva e a nuvem, a árvore e o homem, os tonilhos contados à lareira em linguagem imaculada”.

João Reis Ribeiro in "Três Olhares sobre Trindade Coelho" - http://nestahora.blogspot.pt/2012/01/tres-olhares-sobre-trindade-coelho.html