sábado, 10 de dezembro de 2016

Douro - um jardim suspenso

FotO : josé alfredo alfredo

"...vieram trazidos pela fama e, arqueando, dobrados sobre o chão, praguejando e gemendo, lacerando as mãos e os membros contrsa as lascas sas ardósias, banhando a terra em suor e sangue, arrancaram do xisto novos veios, que ampararam com novos socalcos: e o que fora a montanha deserta, tornou-se em jardim suspenso .E bem depressa os deuses, que por serem feitos de luz do dia, mas vêem tudo, deram com aquela fonte de ambrósia e vieram beber pela taça do sol."


Jaime Cortesão

Magnífico Douro


Os Galegos e a Galiza na obra de João de Araújo Correia





Galegos do Douro 
na Obra de João de Araújo Correia

Autora: M. Hercília Agarez
Editado: Urço Editora e Fundación Vicente Risco
(à venda na Livraria Traga-Mundos em Vila Real, podendo ser consultado  seu site aqui: http://traga-mundos.blogspot.pt/)



Se foi o conto que lhe mereceu mais notoriedade, não pode deixar de realçar-se o valor da sua produção cronística, encetada com colaborações nas imprensas regional e nacional e posteriormente organizada em colectâneas. Escreve em "Vicissitudes da Crónica": 


     Criei-me no culto do género literário a que chamam crónica. Por ele subi ou desci a outra espécie      de devoções ou devaneios de espírito. Mas, o meu fraco pela cronicazinha original, reflexo de               personalidade clara, ficou-me para sempre. Fui criado com ele... 

       In Ecos do País 


Observador atento da realidade física e humana que o cerca, com uma visão crítica privilegiada sobre o passado e presente da região vinhateira em várias vertentes, dedo acusatório apontado ao que fere a sua susceptibilidade humanista e estética, faz do registo curto e incisivo, salpicado de notações poéticas, situado no tempo e no espaço, a sua arma de combate contra tudo o que desvirtua a sua terra, com especial relevo para insultos urbanísticos à paisagem e para questões ecológicas. Se critica, quando é caso disso, também elogia, estimula, reconhece o valor tanto a intelectuais como a trabalhadores que fizeram uma região justamente considerada património da humanidade. 
E é de alguns trabalhadores especiais, diferentes em língua e cultura, em hábitos e atitudes, vindos de terra de mau vento, do modo como o narrador os apresenta aos leitores, que falam os textos apresentados. Não vieram só para o norte, via Minho, os galegos, mas é da sua integração no quotidiano duriense e do contributo braçal que puseram ao dispor do "país do vinho e do suor" (António Cabral) que se pretende fazer eco. Justiça tem sido feita ao fazer a história do Douro da vinha e do vinho: em momentos difíceis da sua vida, desde a construção da escadaria dos socalcos até ao combate à filoxera através da replantação de vinhas e de enxertias, os galegos, indiferentes a olhares ciumentos de nativos, venderam a sua força em terra alheia onde acabaram, em geral, para se radicar. Não é por acaso que pegou de estaca a expressão "trabalha como galego", empregue quando se pretende aludir a pessoa que todo o esforço físico suporta, mesmo o que desrespeita a dignidade humana.

M. Hercília Agarez

Pontes da Régua-865

Foto: josé alfredo almeida